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terça-feira, 28 de junho de 2011

UM CASAMENTO MATUTO EM CORDEL

Por arte das trevalia
Um dia eu tava quentão
Saí mei dirleriado
Andano pelo sertão
Atrai de dançar um xote
Findei foi enchendo o pote
Lá no bar de Zé Rumão.

Dispois q’ueu tava melado
Muntei na minha jumenta
Catuquei nas anca dela
E fui no rumo da venta
A burra disimbestou
E a danada só Parou
Na porta da véia Benta.

Ainda in riba da burra
Sinti chero de panela
De bode, carne, canjica…,
De galinha cabidela…
Pensei q’ueu tava num sonho
Quand’eu vi um Santo Atonho
Pulas brecha da janela.

Foi antão q’ueu m’alembrei
Que naquela sexta fêra
Era o dia do casóro
De Zabé cum Zé Tonhera,
E que no meu vai e vem
Cheguei no Sítio Xerém.
Conheci pela portera.

Seu Zé Tenoro me viu
E mandou eu dermuntá…,
Puxou logo uma cadera
E dixe: -venha pra cá!
Cumê galinha torrada
Beber ceuveja gelada
Tumá cana e proseá!

Um cunvite cumaquele
Era tudo q’ueu quiria!
Era quinem se um pobe
Tirasse na loteria.
Galinha, bode e cachaça!
Inda mais tudo de graça!
-Pra mim foi meu grande dia.

Era noite de San’João,
De forró, milho e fuguêra
E o povo das redondeza
Abriro suas portera
E fôro tudo in jumento
Pra assistir o casamento
De Zabé cum Zé Tonhera.

Entonce o juiz de paz
Moço decente e honrado
Anunciou o casóro
E disse uns palavriado
Que era chei de doutorixe.
Mais ô meno o que ele dixe
Vou fazer um apurado:

“_Estamo aqui riunido
Pra mode fazer o casóro
Do fíi de Ontõe Conrado
C’a fia de Zé Tenóro
E pro ser gente de bem
Vai ser no Sitio Xerém
Invês de ser no cartóro.”

Virou-se pra Zé Tonhera
E foi preguntano a Zé:
-Quá sua naturalidade
Zé respondeu: -Cuma é?
Zé Tenoro se meteu,
E dixe: _Onde tu nasceu,
Cabeça de Batoré!

Zé dixe: Ara que pregunta,
Dessa assim ninguém merece.
Eu nasci na minha casa
Lá donde o riacho desce
Se tiver mais dessa mande
-Eu sou do Sítio Pau Grande,
Todo mundo me cunhece!

O Juiz de Paz virou-se
C’aquele jeito sereno,
Oiô nos zói de Zabé
Rabiscou e foi dizeno:
Donde a sinhora nasceu?
Aí Zabé respondeu:
-Lá no Buraco Pequeno.

O juiz se espremeu
E cumeçô a surrí
E dixe: _Diga de novo,
_Se adisponha a ripití.
Zefa dixe em tom ameno:
_Sítio Buraco Pequeno
É lá adonde eu nasci!

Zé Tenóro deu um grito:
_Deixe de pregunta e ande!
E o juiz dixe: Eu num caso
Nem que o dregolado mande,
Essa noiva ta dizeno
Que é do Buraco Pequeno,
Mas o noivo é do Pau Grande.

Desse jeito num dá certo
Escute bem meu apelo
Se o sujeito é do Pau Grande
Vai ser grande o pesadelo
Naquele bota num bota
Se ele botá descangota,
-Veja só que dermantelo!

Zabé cumeçô chorá
Melano a cara todinha…
O véi tirou a pexera,
Desembalou da bainha,
E gritou para o sujeito:
O sinhô tenha respeito
Que Zabé é fia minha.

Zabé foi limpar os zóio,
Sortô a mão de Tonhera.
Que aproveitou que Zabé
Estava inchugano as bera
Dos óio cas duas mão,
Se afastou da murtidão
E disparou na carrera.

Zé Tenoro nessinstante
Esqueceu-se do Juiz
E gritou: Fíi duma égua…,
Fio duma miritriz…,
Daqui você sai casado
Ou então vai ser capado
Pulo tronco da raiz.

E saiu a murtidão
Correno atrás de Tonhera
Uns cum pau, Ôtos cum peda
Ôtos cum faca pexera
Numa grande rumaria,
E Tonhera escapulia
Pro dento das quebradera.

Quano agarraro Tonhera
Dero umas dez chibatada
Qu’ele perdeu um sapato
E ficou cum as carça mijada
Truxero ele prum claro
Perto de Zefa ajuntaro,
E truxero a papelada.

Quando o juiz viu ca coisa
Estava ficano preta
Foi falar, mas desistiu,
Pigarreou, fez careta,
E dixe no pensamento:
Vou fazer o casamento
Antes que eu me cumprumeta.

E dixe: _Seu Zé Tonhera,
O sinhô qué se casar
Cum dona Zefa Tenoro
Pra nunca mai se apartar?
Naquele instante Tonhera
Sintiu a faca pexeira
No seu pescoço encostar.

Sentiu a ponta da faca
E lhe deu um farnizim,
Um trimilique nas perna,
Na barriga, um brubuim,
Cuma quem conta um segredo
Pulou pro riba do medo
E disbugaiou um sim.

O Juiz virou pa Zefa
E antes de cumeçar
Ela já gritou que sim,
Que quiria se casar,
Nessinstante Zé Tenoro
Dixe: Termine o Casoro
Que o povo quer forrozar.

O Juiz naquela hora
Teve um má prissintimento,
Mas resorveu preguntá
Ali naquele momento
Se lá no Sítio Xerém
Tinha pro lá um arguém
Que era contra o casamento.

Foi antão que ouviu-se a voz
De Xica de Ontõe Conrado
Que Dixe: Esse Zé Tonhera
Já é um home casado,
É casado em Goianinha
Cum Vera, uma prima minha,
Nas orde do delegado.

O Juiz dixe danou-se,
Pra quê que eu fui preguntar!
Zefa dixe: -Nesse caso
Tomém num quero casar.
Tonhera virou de lado
E dixe eu tô dispensado,
E agora vou me mandar.

E escapuliu correndo
Sem ninguém correr atrás…,
Zé Tenoro dixe a Zefa:
Por arte do satanás
Pode o céu dá um açoite,
Se tu num casa hoje a noite
Antonce num casa mais.

Zefa meio arrependida
Ficou num canto calada.
Passou a mão na barriga,
Alembrou das ecapada
Cum Zuca do veio Duda,
Lembrou que tava buchuda,
E resorveu a parada.

Afastou-se assim de lado,
Assubiu numa cadera,
E gritou: Eu era noiva
Mas num amava Tonhera.
Pra festa cuntinuar
Eu pretendo me casar
Cum quarqué um que me quera.

Eu dixe: – É cumigo mermo,
Vamo casar nessinstante.
O Juiz fez o casóro
O forró seguiu avante
E até no raiar do dia
Foi só festa e alegria
Daquele dia em diante.

Assim termina essa história
Onde eu casei por acaso
Mas que deu foi muito certo
Nunca me trouxe um atraso
Vivo no Sítio Xerém
Levando chifre também,
Mas aí, … é outro caso.

José Acaci

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