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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

BELEZAS DO SERTÃO

Senhores críticos basta
Deixai-me passar sem Pejo
Que um trovador sertanejo
Vem seu pinho dedilhar

Eu sou da terra onde as almas
São todas de cantadores
Sou do Pajeú das flores
Tenho razão de cantar

Não sou um Manoel Bandeira
Drumond nem Jorge de Lima
Não espereis obra-prima
Deste matuto plebeu

Eles cantam suas praias
Palácios de porcelana
Eu canto a roça a chopana
Canto o sertão que ele é meu

Vocês que estão no palácio
Venham ouvir meu pobre pinho
Não tenho o cheiro do vinho
Das uvas frescas do lácio
Mais tem a cor de Inácio
Da serra da Catingueira
Um cantador de primeira
Que nunca foi numa escola

Pois meu verso é feito a foice
Do caçaco cortar cana
Sendo de cima pra baixo
Tanto corta como espana
Sendo de baixo pra cima
Voa do cabo e se dana

O meu verso vem da lenha
Da lasca do Marmeleiro
Que vem do centro da mata
Trazida pelo lenheiro
E quando chega na praça
É trocada por dinheiro

O meu verso tem o cheiro
Da carne assada na brasa
Quando a carne é muito gorda
Esquentando a graxa vaza
É a graxa apagando o fogo
E cheiro invadido a casa

Aqui é minha oficina
Onde concerto e remendo
Quando o ferro é grande eu corto
Quando é pequeno eu emendo
Quando falta ferro eu compro
Quando sobra ferro eu vendo

Meu verso é feito a cigarra
Num velho tronco a sonhar
Que canta uma tarde inteira
E só para quando estourar
Que eu troco tudo na vida
Pelo prazer de cantar

Quem foi que disse
Professor de que matéria
Que o sertão só tem miséria
Que só é fome e penar
Que é a paisagem
Da caveira de uma vaca
Enfiada numa estaca
Fazendo a fome chorar

Num pode nunca imaginar
O som que brota
Da cantiga de uma grota
Quando a chuva caí por lá

O cheiro verde
Da folha do Marmeleiro
E o amanhecer catingueiro
No bico do sabiá
Tem Mulungu do vermelho
Mais vivo e puro
E tem o verde mais escuro
Que tinge o pé de Juá
A barriguda mostrando o branco singelo
E a força do amarelo
Na casca do Umbú-caja

Criou-se estigma
Do matuto pé de serra
Que tudo que fala erra
Porque num pôde estudar
Só fala versos matutos obsoletos
Feitos por analfabetos
Que mal sabem se expressar

Falam do sul com deboche
Que isso é cultura
De só comer rapadura
Como se fosse manjar

Saibam que aqui
Tem abelha de capoeira
E o mel da flor catingueira
É mais doce que o mel de lá

Temos poesia que exalta
O que é sentimento
E a força do pensamento
De quem sabe improvisar

Tem verso livre
Tem verso parnasiano
E mesmo longe do oceano
Tem galope a beira mar

Zefa Tereza mim ensinou
Que pra um caboclo
Entrar na roda de cocô
Tem que saber rebolar
Soltar um verso na roda
Que se balança
E no movimento da dança
Fazer o cocô rodar.


(Autor:Antônio Marinho Neto) Naturalidade São José do Egito - PE

Um comentário:

  1. Uau! Tô me segurando pra não chorar... Eita, a lágrima já caiu...

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